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segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Ciência Popular ou Sabedoria Popular

          Entende-se por ciência popular o conhecimento empírico, ou fundado no senso comum, que tem sido uma característica ancestral, cultural e ideológica dos que se acham na base da sociedade. Este conhecimento lhes tem possibilitado criar, trabalhar, interpretar, predominantemente com os recursos naturais diretos oferecidos ao homem. Este conhecimento não é codificado segundo os padrões da forma dominante e, por esta razão, é menosprezado como se não tivesse o direito de articular-se e expressar-se em seus próprios termos. Mas este conhecimento popular também possui sua própria racionalidade e sua própria estrutura de casualidade, isto é, pode-se demonstrar que tem mérito e validade científica (BORDA, 1999).
          Este conhecimento empírico muito naturalmente permanece fora da estrutura científica formal construída pela minoria intelectual do sistema dominante, por representar uma infração a suas regras. Assim, por exemplo, os costumes práticos de um curandeiro camponês são inaceitáveis a um médico. Essa inaceitabilidade provém do fato de que os costumes do curandeiro ignoram e ultrapassam os esquemas institucionais do médico (BORDA, 1999).
          Diante da existência de paradigmas científicos que servem aos interesses dos grupos social e economicamente dominantes, torna-se necessário contrapor paradigmas alternativos construídos a partir de uma aproximação com os setores populares e às suas organizações de base, com o intuito de entender de dentro a versão de sua própria ciência prática, e de sua reprimida extensão cultural, e buscar formas de incorporá-las a necessidades coletivas mais gerais, sem fazer com que percam sua identidade e sabor específicos (GAJARDO, 1987).
          Nesse sentido, a Agroecologia, como uma ciência emergente e transdisciplinar, pode ser uma alternativa de referencial teórico para os projetos de pesquisa em que o interesse é reconhecer o conhecimento popular como um conhecimento válido (MDA, 2004).


Referências Bibliográficas

BORDA, O.F. Aspectos teóricos da pesquisa participante: considerações sobre o significado e o papel da ciência na participação popular. In: BRANDÃO, C. R. (Org.) Pesquisa participante. 8. ed. São Paulo: Brasiliense, 1999. P. 42-62.
GAJARDO, M. Pesquisa Participante: propostas e projetos. In: RODRIGUES. C. Repensando a pesquisa participante. 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. P.15-48.
MDA. Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural. 2004. Disponível em: Acesso em: Jan. 2005.



Palavras-chave: agroecologia, agroecossistema, camponês, transição agroecológica 


sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Por uma nova relação homem - natureza

          A constituição brasileira de 1988 em seu artigo 225 menciona que todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações (Sampaio, 1993). No entanto, ao se fazer uma breve comparação histórica da relação homem versus natureza percebe-se que desde as antigas civilizações o homem tem sido o principal predador e depredador do meio ambiente, e que civilizações que deixaram de existir por motivos de guerra, antes disto já estavam enfraquecidas com a utilização errônea das práticas ecológicas (Carvalho, 1991). Entretanto é importante frisar que esta não é uma análise que se sustente em culturas, que hoje, denominamos tradicionais.
          A história do homem em sociedade é caracterizada por uma relação complexa com a natureza. A partir do domínio do fogo e da produção dos primeiros instrumentos para agricultura até a era da cibernética, dos vôos espaciais tripulados, a relação homem versus natureza, na perspectiva da cultura ocidental, vem sendo marcada pela ausência de compromisso com a conservação dos recursos naturais para as gerações futuras.
          A entrada do homem na história se faz, ao contrário de outros seres, como produtor. O homem é um ser que transforma a natureza. Por sua vez, a natureza igualmente entra na história com a aparição do homem (o homem é o único ser que faz história, que existe historicamente). Contudo, ao contrário do que ocorre com as outras espécies animais, não se estabelece nesse caso uma relação plena. A relação homem versus natureza é caracterizada como uma forma de dominação. Daí porque se diz que as bases da relação homem versus natureza começaram, desde sempre, sobre bases equivocadas, muito embora a transformação da natureza é um fato necessário e inevitável, porém não sobre as primícias da destruição (Carvalho, 1991). Em outras leituras é possível demonstrar que grupos humanos desde tempos imemoriais estabelecem relações de respeito numa perspectiva que se estabelece nas dimensões do sagrado.
          O advento do sistema capitalista resignificou o domínio do homem sobre a natureza, pois introduziu modificações no modo de vida, na organização da produção, nas instituições políticas, e nas formas culturais. O avanço tecnológico dele decorrente, se por um lado, ainda que para poucos, gerou benefícios no campo da saúde, da cultura e da habitação, por outro lado, está substituindo os ecossistemas (bosques, águas, solos, fauna, etc.) no meio urbano por espaços onde se acumulam rejeitos inorgânicos (lixos, plásticos, etc.), com poluição atmosférica e sonora e contaminação das águas e, no meio rural, por espaços com erosão, desertificação, diminuição da vazão das águas dos rios e aumento das queimadas. Isso configura, sem precedentes na história universal, a deterioração do habitat humano, das condições ambientais e da qualidade de vida, ou seja, o avanço tecnológico comprometeu, em pouco tempo, e de maneira quase irreversível, o que a natureza levou milhões de anos para construir.
          De acordo com Ricklefs (1996), a população mundial está aumentando numa taxa de 2% ao ano. Segundo esse autor, mesmo se o crescimento populacional fosse interrompido hoje, sérios problemas ainda permaneceriam. Isso porque a população humana está consumindo os recursos naturais mais rapidamente do que eles são regenerados pela biosfera e, ao mesmo tempo, está produzindo tantos rejeitos que a qualidade do ambiente, se deteriora numa taxa alarmante, e de forma absolutamente excludente, pois poucos consomem muito o que tira da maioria a possibilidade do usufruto do que deveria ser comum a toda a humanidade. Ocorre que, a maioria da população humana não é mais sustentada pela terra que ela ocupa e o curso presente aponta numa direção imprevisível. Por certo, tal curso não é nada convidativo, pois sinaliza para um decréscimo na disponibilidade de energia e alimentos, para um aumento acelerado da pobreza, para a falta de condições de higiene, para o agravamento da incidência de doenças e para um ambiente gravemente poluído, produto de uma profunda desigualdade na distribuição e utilização dos recursos.
          Urge portanto, que o homem adote uma nova postura nas relações com a natureza, entendendo-se como parte da natureza, não à parte da natureza. A espécie humana tem sido bem-sucedida em se tornar uma “espécie” tecnológica, mas a sua sobrevivência agora depende de se tornar também uma espécie ecológica (Ricklefs, 1996). Isso implica em dizer que, a ocupação dos espaços rurais deve se pautar por agredir o mínimo possível à natureza. E, a produção, para fazer valer os princípios do desenvolvimento sustentável, deve ser crescentemente baseada em recursos renováveis, distribuídos de maneira equânime.


Referências Bibliográficas

CARVALHO, G.C. Introdução ao direito ambiental. 2 ed. São Paulo: Letras, 1991. 329p.  

RICKLEFS, R. A Economia da natureza. 3 ed. Rio de Janeiro: Koogan, 1996.

Palavras chaves: agroecologia, agroecossistema, camponês, transição agroecológica